Café

Inebriados

Entrou na sala e viu um corpo inquieto no sofá. Por um segundo teve a impressão de que sairiam algumas palavras daquela boca, mas recebeu só um sorriso.

Café y besos. Anónimo, ca. 1941.

Café y besos. Anónimo, ca. 1941.

Ela fervia bem mais do que a água no bule. Batia as unhas pintadas de um castanho semelhante ao que beberia em alguns instantes na beirada do fogão. Conservava os dedos em uma distância segura da chama, mas a sentia aquecer a pele, ardendo.

Ela ardia bem mais do que aquela chama. Derreteria neve só com o olhar. Inflamaria uma floresta inteira se passasse entre as árvores. Ardia em febre, mas ninguém notava.

Na sala pés ansiosos se sacudiam. Havia mãos que não sabiam o que fazer também. Do sofá dava para ouvir o sussurro de uma música. Alguma coisa de amores, de dores, de flores. Ela adorava essas letras com rimas comuns, que beiravam o brega.

Ele suspirou e sentiu o cheiro do café.

Enquanto deixava a água fervente do bule escorrer pelo coador, ela se doava, como se estivesse se colocando na bebida, transformando-se de clara a castanha. Era fascinada por cores.

Gostava de ver como a água se modificava só para atender ao capricho de bocas desejosas de sabor, de calor, de energia. Gostava de acompanhar como em tão pouco tempo dois se tornavam um, sem se perderem, já que conservavam suas essências.

O cheiro do café invadiu a casa. Em poucos minutos a mesa estaria posta, mas nenhum complemento seria necessário. O café bastaria. Ele sempre basta.

Gostava de ver como a água se modificava só para atender ao capricho de bocas desejosas de sabor, de calor, de energia. Gostava de acompanhar como em tão pouco tempo dois se tornavam um, sem se perderem, já que conservavam suas essências.

Com a paciência de uma flor que se abre devagar ao amanhecer ela esperou o café passar, observando atenta cada gotejar do final. Não passa das nove da manhã. Seu visitante inesperado a esperava na sala. Não se lembrou dele. Não se lembrou porque não o havia esquecido. Ela ardia. Estava febril. Chegou a corar.

Decidiu servir logo o café. A boca o desejava. A língua pedia para molhar-se com o calor amargo recém-feito.

Entrou na sala e viu um corpo inquieto no sofá. Por um segundo teve a impressão de que sairiam algumas palavras daquela boca, mas recebeu só um sorriso.

Sem falar, fez um sinal convidando-o para a mesa, e ele logo se sentou ao lado dela, olhando-a fixamente, como ela olhava para o café, instantes atrás.

De repente, ali, naquelas xícaras de café, ela colocou todo o amor que podia. Todo o amor que gostaria de declarar, mas a boca t(r)emia. Serviu a bebida. Viu os cheiros dos cafés subirem e se misturarem aos perfumes do dia.

Devagar levantou a xícara e inspirou fundo. Sentiu o aroma (mais do amor que tinha colocado do que do próprio café) e, ao bebê-lo, pensou que nada podia ter de melhor em sua vida: um amor, um café e um bom dia. Sentado a seu lado ele a observava e não pensava em mais nada. Estavam os dois inebriados pelo café, pelo dia e seus aromas. ®

Publicado en: Narrativa, Noviembre 2014

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